- --«(Tångerinå)»-- -


O Ser que é Nada

        Como podemos ter certeza de algo? De qualquer coisa? Qual foi o exato momento em que nos determinamos auto-conscientes o bastante para determinar se aquilo que vivemos é real ou não? Hoje, por exemplo, acordei e tive a certeza que existia pelo fato de ouvir os berros do meu vizinho falando que iria se metamorfosear em um faqueiro de trinta e seis talheres. Mas quem garante que na realidade eu não estava a ouvir um faqueiro de trinta e seis talheres gritando que estava destinado a se transformar no meu vizinho? Ele é louco, obviamente. Não o faqueiro, o meu vizinho. Ele acorda todos os dias batucando nas panelas e na barriga da sua mãe, e usa uma pasta diferente para cada dente. Come gelatina com faca de peixe e acredita que o feijão declarou guerra contra o arroz por ciúmes da batata. Gosta de fazer tiro ao alvo com ovos nas janelas dos vizinhos (ou seria esse o meu irmão?). Em suma, como diria o bom eufemista, ele é mentalmente invariado. Seu nome é Claudinho, mas agora só atende quando chamado de Tramontina. Foi levado pelo Corpo de Bombeiros esta tarde no prédio ao lado do meu. Era louco de pedra e também de aço inox.

        Mas a saúde mental do meu vizinho não vem ao caso. Quero discutir a realidade, ou melhor, a ausência dela. E não, não vou me reter ao cárcere paradoxal de questionar se o que estou escrevendo aqui, então, não deve por consegüinte existir. Várias seitas orientais acreditam que estamos todos nadando num vácuo do nada, seja lá o que isso signifique. Da próxima vez vou levar uma bóia comigo, tipo daquelas que parecem duas mangas bufantes que as crianças e o Ricardo usam porque não sabem nadar. De qualquer forma, em todo o esplendor do meu gongorismo relativista, sempre me encuquei com a possibilidade de estarmos todos vivendo numa ilusão eterna e efêmera ao mesmo tempo, porquanto o tempo aqui não contaria; mas sim assemelharia-se aos relógios derretidos de Dalí. Não sei se poderia suportar o fato de descobrir que o discurso de Martin Luther King, o frango com molho de atum do meu avô e o nariz do Michael Jackson são oriundos do mesmo plasma inexistencial. Mas se toda a minha vida for de fato uma ilusão, definitivamente me sinto menos culpada por todos os bolos de chocolate que comi durantes as minhas dietas. De qualquer maneira, o que é que faz com que eu tenha tanta certeza que estou escrevendo aqui e agora, e não comprando carpete para a minha câmara sadomasoquista em Zurique? Quem sou eu? O carpete de vinil combina com chicote de couro? Somos como um grande plasmóide de nadicidade, espasmos de inexistência; e, de acordo com os meandros dessa fantasia insípida, podemos dormir com a bunda do Jim Morrison e acordar com o nariz do Michael Jackson que não faz diferença alguma. Portanto, apenas o nada existe - ou inexiste, ainda que com um nariz insólito, uma cor diferente de pele e uma irmã chamada Janet Jackson. Não há círculo, quadrado, princípio feminino e masculino, tequila ou Kelly Key. O partido republicano não passa de uma abstração irracional da nossa mente, mas isso todo mundo já sabia. Não há sequer notas de vinte dólares. Posso ser um vizinho que sonha que é um faqueiro ou um faqueiro que sonha que é um vizinho – tanto faz. Em suma, a ilusão não conhece desigualdade existencial. Bill Gates e todos os Silvas, Einsten e Bush, Claudinho e eu – é tudo uma questão de falta de perspectiva.

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        Algo me diz que ouvir Pink Floyd e escrever no blog ao mesmo tempo não é saudável. (E não são as vozes da minha cabeça dessa vez.)

 

 

 



 Escrito por ««Ånninhå®»» às 21h59
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Próxima parada: Fazenda Inglesa

Quiz: Onde está o Wally? (Resposta no final do post.)

     Erro que se preze não é erro, é experiência. E, no melhor dos sentidos, viajar para Petrópolis com a galera da ECO foi uma puta experiência! (Afinal, se você não erra de vez em quando, é sinal de que você está definitivamente fazendo alguma coisa errada.) Nesta altura do mês e das férias, meu bolso já tinha declarado falência e meu fígado, pedido aviso prévio. Entretanto, o bom senso e eu nunca fomos muitos amigos (ele sempre quebrava a cabeça das minhas Barbies quando éramos crianças). Para poder ir, assaltei o meu fundo emergencial - aquela mesma caixa que eu guardo na minha gaveta de meias - e o da minha mãe - aquela mesma caixa que ela guarda na sua gaveta de meias - e, junto com o Boghob, o Ricardo, o Rodrigo e a Schreiber, peguei o ônibus na quarta-feira para encontrar com o pessoal que já nos aguardava no Tafru’s Resort – o Tafru em pessoa, a Camila, o Fabiô, a Thais e o Wallace. No trajeto, contamos fuscas, vacas, placas de carro e quase propus computarmos também quantos homens com chapéu mexicano dançando quadrilha conseguíamos ver, mas o máximo que consegui foi a macarena, então desisti da idéia. A nata da ECO, ainda que de um leite meio coalhado. É claro que teve gente que fez falta, como a Aninha, o Barrucho e o Felipe. Mas depois de tanto frozen e tequila, sinceramente, eu sentiria falta até da Cheryl Blair e do boneco de mashmellow do Caça-Fantasmas. Na verdade, não pretendia beber tanto - mas, enfim, não podia fazer muita coisa, porque essa era a Lei. De fato, costumes de casa vão a praça: em termos técnicos, tudo transcorreu como podia se esperar de uma viagem dentro do típico senso de improvisação da ECO: tinha arroz mas não tinha óleo, tinha cachaça e tequila mas não tinha limão, tinha frozen mas não tinha gelo. Mas tudo acabou dando certo no final: o sempre eficiente Fábio comprou o óleo, a caipirinha e o frozen viraram gummy e a tequila desceu só no sal mesmo. Na hora das refeições - no melhor espírito de parcimônia - contamos até os grãos de arroz que cada um tinha o direito. Enfim, tudo que tem que dar certo dá errado, e tudo que tem que dar errado dá errado mesmo, e isso é justamente isso que faz uma viagem inesquecível.

     Esqueça as Torres Gêmeas, o Palace II ou a sua tia gorda tentando pular do trampolim: para compreender o que desabar realmente significa, nada mais eficaz do que um vídeo da nossa viagem (à venda nas melhores locadoras da sua cidade). Seja no Twister, na briga-de-galo fora da piscina ou na rede (aka harém) do Boghob, toda hora parecia uma boa hora para cumprimentar o chão. Já poderia falar que ele faz parte da família agora, de tanto que eu me me identifiquei com tapetes, pisos e asfalto ao longo da viagem - dá até para comprar um daqueles colares de cara-metade. (Pelo menos o chão só guarda potencial para quebrar a minha perna, e não as cabeças das minhas Barbies.) Tudo com a mesma graça de um elefante numa loja de cristais. Têm coisas que não têm preço, mas têm calça rasgada e hematomas de sobra. E teve muitas outras coisas que vale muito mais a pena lembrar quando não estiver sóbria. Só sei que o QI de todo mundo baixou uns 20 pontos depois da brilhante idéia de fazer um "montinho" na Virginia na sala da lareira, o que acabou resultando num vidro quebrado. Somando-se com os vários jingles da viagem, a espetacular apresentação do Shivibori, poderia-se dizer que, a respeito da contagem de nosso QI, estamos perigando abaixo de chimpanzés que aprenderam a dançar balé e acima de George W. Bush. Só sei que espero fazer muitas viagens mais com a galera (até para o Mato Grosso eu vou!), até porque errar nunca foi tão divertido.

*Resposta do quiz: está no bueiro(ooooooo)!

 



 Escrito por ««Ånninhå®»» às 16h31
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