- --«(Tångerinå)»-- -


Procura-se pé e cabeça para texto solteiro e bem-apessoado

        Pressão para atualizar = várias frases soltas em esboços de parágrafos, fragmentos de idéias sem pé nem cabeça. Talvez um joelho ou um braço, mas certamente nenhuma revisão. Não há começo, meio e fim (não no sentido de sou-um-texto-contemporâneo-então-trate-de-me-decifrar, mas sim no sentido de sou-um-texto-muito-ruim-tem-certeza-que-quer-continuar).

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        Dizem que há momentos em nossa vida que nunca esquecemos, e que outros simplesmente deixamos para trás, como sapatos velhos, álbuns de figurinha e novelas epilogadas. Com a história, de certa forma, as coisas não funcionam de maneira muito diferente: enquanto certas épocas, fatos e olfatos sobrevivem ao tempo e ficam registrados no inconsciente coletivo, outras são incontornavelmente relegadas ao abismo do esquecimento, lugar-comum dos escritores que não polemizaram, dos políticos que não roubaram e das farpas que não infeccionaram. Embora estar lugar certo, na hora certa e usar sua cueca da sorte tenha ajudado muitos acontecimentos a tatuarem-se nas páginas da história, não há como estabelecer parâmetros precisos para determinar aquilo que será estampado como símbolo de uma geração. A história é tão imprevisível que ela inclusive gosta de repetir a si mesma, mas só quando ninguém está prestando atenção.

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        Uma outra característica da história é que ela também é feita pelos seus esquecidos, ainda que eles não apareçam nos créditos finais e não costumem ser chamados para as festas mais legais. Não existe nada de novo, exceto aqui que já se esqueceu. E mais: muitos são os que, estando um passo a frente de seu tempo, só poderão ser compreendidos muitas gerações adiante (quando o são). Afinal, quantos James deixamos passar antes de decidirmos imortalizar um Dean? Quantas idéias deixamos de ouvir simplesmente porque elas não nos caíam bem depois do jantar, ou porque não estávamos apropriadamente vestidos para recebê-las?

        Fatos demoram anos para fazer sucesso da noite para o dia, e mesmo assim aqueles que são rejeitados pela memória social podem desenvolver depressão aguda e, mais tarde, psicopatia obtusa (o que pode levar muitos deles à anti-sociabilidade, à sodomia e, em casos mais extremos, à compulsão por pronunciar a palavra "esquadro" na presença de estranhos e/ou freiras venezuelanas). As lembranças que marcaram uma época nunca são eventos isolados e independentes: elas nascem de contextos, e estes não acontecem de repente, mas são edificados ao longo de um tempo que esquece ou recorda, de acordo com o seu estado de espírito e seu estoque de ginko biloba. É claro que isso não implica que os acontecimentos tenham que abandonar seu caráter intempestivo - mas, de certa forma, são as ocasiões que fazem as revoluções (embora elas tenham menos espaço no baú de memórias de uma geração e ainda ganhem muito menos cartões no Natal).

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        Dizem que há momentos que nunca esquecemos em nossa vida: nossa primeira dor de ouvido, todos os bueiros em que caímos e todos os maios de 1968 que caem sobre nós ao longo dos anos. Este, provavelmente, não é um deles. A não ser que alguém esteja recitando este texto e usando um babadouro estampado com frases de Crime e Castigo ao mesmo tempo, ou algo parecido, é altamente duvidoso que este instante esteja fadado a reminiscências futuras ou posteriores (o que vier primeiro). A vida continuará a seguir seu curso até que o Intempestivo cruze o nosso caminho novamente. O mundo não parará de rodar, o jornal continuará a ser entregue no dia seguinte e homens chamados Astrogildo não deixarão de acordar pensando por que raios logo eles têm que se chamar Astrogildo. Não obstante digam que o tempo nos ajuda a compreender melhor as coisas (embora, às vezes, ele seja incapaz de amarrar o laço do próprio sapato), nem todos os momentos saem da vida para entrar na História, e nem por isso eles podem ser ignorados quando o presente se predispõe a estudar o passado. O tempo não auxilia na compreensão das coisas, e sim na compressão delas.



 Escrito por ««Ånninhå®»» às 02h46
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