(A cena se passa no pátio de uma escola especializada na formação de revolucionários. Óculos 3-D são distribuídos para a platéia, mas eles são confundidos com canapés de cebola e acabam causando intoxicação alimentar em pelo menos um casal de argentinos da terceira fileira. Os alunos [curiosamente interpretados por pingüins bilíngües] estão no recreio e discutem o uso do ponto-e-vírgula como a mais nova ferramenta de dominação empregada pelas classes dominantes. G. e F., nossos protagonistas pró-ativos, entrão em cena.)
G.: Oh, F.! Sinto que temos que fazer algo pela revolução.
F. (depois de um longo silêncio): Sim, talvez esta seja uma boa idéia. Mas fazer o quê? A turma B já violou o McDonald’s da esquina na semana passada. E ainda saíram sem pagar a conta!
G. (pensativo): Precisamos encontrar outra solução. O fim do mês está chegando e eu não participei sequer de um plesbicito! Minha mãe já está começando a cobrar. É só eu não querer comer os vegetais no jantar que ela joga na minha cara que todos os meus irmãos já foram prisioneiros políticos ao menos uma vez!
F. (em tom compreensivo): Eu te entendo, cara. Outro dia mesmo o meu pai ameaçou me dar um tênis da Nike caso eu não falasse mal da Reforma Universitária na frente dos amigos dele.
G. (subitamente exaltado): No fundo, eles tão é certos, isso sim. A gente só sabe discutir, mas na hora de agir, necas. Deixa eu te dizer uma coisa: sabe o que a gente devia fazer?
F. (em tom sério): Primeiramente, nunca usar a palavra necas outra vez.
G. (obviamente ignorando F.): A gente devia é agir! É como vovô sempre disse: quem sabe faz a hora e não espera acontecer. Pois eu sinto a revolução bater à porta, e dessa vez eu tenho certeza que não é o meu irmão voltando porque esqueceu as chaves de casa!
(Os dois permanecem em silêncio por longos cinco minutos. A platéia, entretanto, não desconfia que, na verdade, os atores esqueceram suas falas - provavelmente porque ela está sendo distraída por um animador de audiência que, num momento particularmente tenso de seu show, está tentando fazer um hipopótamo lecionando filosofia com balões coloridos do estilo longuete.)
F.: E se nós fizéssemos uma passeata contra o governo? Quando era pequeno, sempre quis conhecer Brasília, mas mamãe fugiu com o amolador de facas antes que pudesse pedi-la que me levasse lá.
G.: Mas isso é horrível, F.! Todos sabem que os amoladores de faca se renderam ao FMI desde que as facas Ginsu entraram no mercado!
F. (um tanto sem graça): Na época, ela tentou amenizar o choque dizendo algo a respeito de ir ajudar crianças que passam fome na África a traduzir as músicas de Joni Mitchell para o russo, mas eu sempre desconfiei que a partida de mamãe tivesse alguma coisa a ver com o fato de eu nunca ter aprendido a falar sale e delivery em português.
G. (mudando propositalmente de assunto): Eu honestamente não sei o que pensar da sua proposta de ir à Brasília, F.. Na última passeata que eu participei, o máximo que conseguimos negociar foi um pote de azeitonas para cada manifestante, e as minhas ainda vieram todas com caroço.
F.: Seilá... Eu acho que é hora de radicalizar. Ir às ruas, se levantar em armas, roubar as cuecas do presidente e trocá-las por outras de um número menor, qualquer coisa!
G. (depois de meditar por um tempo): Já sei! Por que não invadimos o gabinete do governador e o obrigamos a cantar Atirei o Pau no Gato enquanto fazemos cócegas em seu joelho direito?
F.: Pois eu acho que essa é a melhor idéia que ouvi desde que Marx desistiu de sua carreira como dançarino de funk para se dedicar à escrita. Eu acho que isso irá ensina-lo a não desviar o dinheiro público para reformar o banheiro do seu Fox-Terrier.
(Os dois sorriem em cumplicidade, mas logo F. começa a chorar, pois lembra da queda do Muro de Berlim ao ver uma mulher na poltrona B-8 com um vestido muito parecido com aquele que seu avô usava nas aulas de halterofilismo. Uma música medieval começa a tocar no fundo e, para alívio da platéia, as cortinas se fecham antes que G. tenha a oportunidade de atacar a primeira fileira com uma foice e um martelo. Pelo que tudo demonstra, o primeiro ato chega ao fim. Tirando um espectador mais ao fundo, revoltado pelo fato dos protagonistas não terem revelado as outras letras de seus nomes, o público aplaude com fervor. Contudo, todos logo caem na gargalhada ao perceber que o assistente de palco está nu e gritando algo sobre abelhas assassinas sendo distribuídas como souvenirs por agentes secretos do Partido Burguês. Dois minutos depois, todos estão mortos.)